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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
Muito do mundo que a criança aprendeu, viu-o através daquela janela. Muitos dias escorreram na calmaria dos relvados largos e revolutearam no ar com as cores de Outubro. Tantas e tantas horas gotejaram na mansidão da chuva a bater nos vidros embaciados da janela de guilhotina, na melancolia cinzenta do Inverno. Ali saboreou Verões de sol fulgurante a reverberar nas pedras brancas do imponente memorial e nas águas mansas do Tejo que aconchegavam lá ao fundo, no horizonte, os telhados da rua de baixo.
Mais tarde, quando se apaixonou pela prodigiosa arte de brincar com as palavras, cuidou muitas vezes que quem lhe escolheu o nome, à rua de baixo, deve tê-lo feito do alto daquela (agora sua) janela. Mais nenhuma razão se descortinava, matutou muitas vezes em segredo, para chamar Rua do Paraíso a tal correnteza de prédios tortos, escurecidos pelo tempo e pela fuligem, apartados por um empedrado desconjuntado de basaltos polidos e remendos de alcatrão.
Visto assim, a um universo de distância, foi um bom ponto de onde partir.